domingo, março 11, 2007

Paulo e Pedro, a Questionável Amizade

Jesus disse, "Tu, segue-me!" (João 21, 22)

Segundo a tradição da igreja católica, Pedro e Paulo eram grandes amigos. São representados como sendo os melhores amigos em Cristo. Mas... não era bem assim.

A primeira prova que temos vem do próprio Paulo, que desprezava as palavras e acções de Pedro, falando contra ele em público (Gálatas 2, 11-14). Por raciocínio lógico deduzimos que Pedro não podia concordar com Paulo. Sendo um dos Doze, esteve com Jesus e sabia qual era a verdadeira doutrina dele (ou seja, diferente da de Paulo).

Quando confrontados com este argumento, cristãos conhecedores da Bíblia não perdem tempo a citar a segunda carta de Pedro, capítulo 3, versículos 15 e 16: "Escreveu-nos também o nosso caríssimo irmão Paulo, segundo a sabedoria que lhe foi concedida. E assim fala em todas as Cartas em que trata destes temas; há nelas alguns temas difíceis, que os ignorantes e pouco firmes deturpam - como fazem às restantes Escrituras - para a sua própria perdição."

Ora, há algumas coisas que podemos dizer sobre esta passagem. Primeiro que Paulo tinha de facto, muitos inimigos que analizavam as suas cartas ("distorcem") e que "Pedro" considerava as cartas de Paulo "Escritura". E se assim era, então aqui está a prova que Paulo e os Apóstolos até se davam bem e que Paulo vinha da parte de Jesus. Se isto é verdade então andei aqui a perder tempo com tantos posts a desmascarar Paulo.

Claro que as coisas não são tão simples.

Douglas del Tondo no seu livro Jesus Words Only faz uma breve história do canon bíblico. Um pormenor interessante que vemos nesta cronologia é que a segunda carta de Pedro teve bastantes problemas em ser aceite. Ao fim de várias décadas foi integrada no canon, e novamente rejeitada alguns anos mais tarde, até que finalmente passou a fazer parta da Bíblia tal como a conhecemos hoje. Esta constante rejeição é suficiente para levantar algumas suspeitas. E de facto, muitos estudiosos concordam que 2 Pedro é uma pseudo-epístola, não escrita por Pedro, o Apóstolo.

Há também uma boa parte de estudiosos que pensa que estes versículos onde Paulo é referido são uma inserção (feita, nada mais nada menos que pelos fiéis discípulos de Paulo - nada de novo, é apenas mais uma táctica desonesta como todas as outras). E, efectivamente, lendo o texto em contexto, a menção a Paulo parece um pouco descabida. Mais, retirando os dois versículos, a carta continua a fazer perfeito sentido.

Na minha opinião, as duas coisas podem ser verdade. Talvez 2 Pedro seja uma fabricação, e se é, então não interessa se faz ou não referência a Paulo, ou se essa referência é uma inserção posterior ou não - é falsa e acabou. Mas se é de facto uma carta autêntica de Pedro, então os versículos são definitivamente uma inserção. Pedro jamais apoiaria Paulo.

Seja como for, é curioso olhar para um outro livro bíblico: o Evangelho de João. Os últimos capítulos, que falam dos episódios pós-ressureição, também levantam algumas suspeitas de inserção posterior. Se tal aconteceu, então não duvido que foi obra de João e os seus seguidores, eternos defensores de Jesus. Caso não sejam uma inserção, contêm, para quem acredita nestas coisas, uma profecia bastante relevante.

Pedro é sempre retractado como o discípulo com alguns problemas em manter-se fiel às suas convicções. Não foi ele que negou Jesus três vezes no momento mais difícil? Numa clara referência a este momento de fraqueza, Jesus ressuscitado pergunta a Pedro três vezes se o ama e se é seu amigo. Relembremos o que Jesus entende por amigo: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando." (João 15, 14)

Cada vez que Pedro diz que sim, que é muito seu amigo, Jesus pede-lhe que apascente as suas ovelhas, ou seja que espalhe a sua mensagem. E depois diz o seguinte:

"Em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres." (João 21, 18)

Interpreta-se normalmente este "estender as mãos" como sendo uma referência martírio de Pedro. Eu acho que pode ser uma maneira de dizer "pregar". Mas quem é o "outro" que ata Pedro e o leva para onde ele não quer ir? Conhecendo o estilo de João, este é mais um puzzle, uma referência indirecta a alguém... E quem? Paulo, who else? Paulo, o falso apóstolo que de modo nenhum era amigo de Jesus, pois não fazia o que ele tinha ensinado, e pregava uma outra doutrina. Se Pedro era amigo de Paulo então não podia ser amigo de Jesus também. Já dizia Jesus, nenhum homem pode servir dois senhores... (Mateus 6, 24) Então Pedro era amigo de quem? De Paulo, tal como está na carta que Pedro não escreveu? Ou de Jesus, tal como está escrito no Evangelho e como o próprio Pedro disse? Não me parece haver aqui grande dúvida, sinceramente.

Até aos dias de hoje, Pedro é o único Apóstolo que se diz ter tido alguma relação de proximidade com Paulo. Se a falsa carta de Pedro, com a inserção referente a Paulo, já estava em circulação na altura em que este bocado do Evangelho foi escrito, não me espanta nada encontrar esta referência feita por João: Paulo estava a tentar levar Pedro para o seu lado e João tinha que impedir a vitória do falso apóstolo. Não é nada que João não tenha feito noutros textos (Apocalipse e Cartas).

Ainda neste último capítulo do Evangelho de João há mais uma coisa interessante. Imediatamente depois de profetizar sobre o futuro de Pedro, Jesus diz-lhe: "Segue-me!" E mais adiante, torna a dizer: "Tu, segue-me!"

Jesus parecia preocupado com os caminhos de Pedro... Talvez estas sejam palavras importantes. Segue-me. Jesus disse-o mais que uma vez durante o Evangelho: "Segue-me."

Trabalho de casa: comparar com Filipenses 3, 17, onde Paulo escreveu: "Sede todos meus imitadores."

A verdade é que ainda não acabei de falar sobre o infame Paulo. Continuo no próximo post.

3 comentários:

Paulo disse...

Linda interpretacao/conclusao. Ainda que discorde. Agora, pare e reflita: saber se Paulo era ou nao um verdadeiro amigo de Pedro vai interferir nos seus relacionamentos de amizade? Concentre-se nos ensinamentos de Jesus. Sua amizades serao bem melhor sucedidas. Nao critique a Igreja sem a conhecer.

Filipa Antunes disse...

Paulo,

O que eu critico na Igreja é apenas aquilo que conheço. Não creio é que o Paulo conheça as minhas amizades para poder tirar conclusões sobre o sucesso ou insucesso delas, ou dizer que "serão bem melhor sucedidas" caso eu não critique a igreja, ou caso eu faça algo que, em todo o caso, já faço (todo este blog é sobre os Ensinamentos de Jesus, e apenas Jesus!)

misaway rocha disse...

Pedro também dava muitos motivos para ser repreedido. era mascarado. agiu de má fé bem na presença de paulo no que diz respeito a nós os gentios sempre desprezados pelos judeus... e paulo disse: Sede meus imitadores, como também eu de Cristo.1 Coríntios 11.1