quarta-feira, julho 26, 2006

товарищ иисус

Há muito, muito tempo atrás li o livro dos Actos dos Apóstolos. Tem algumas coisas interessantes e outras não tanto, mas é neste livro que encontramos um conjunto de passagens extraordinárias que mudaram a minha concepção da doutrina de Jesus. O texto diz o seguinte:

"E a multidão dos que tinham abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois os que possuiam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um conforme a necessidade que tivesse." (Actos dos Apóstolos 4, 32-37)

Quando me deparei com estas linhas tive que ler tudo outra vez. Pensei que não tinha lido bem. De certeza que isto não podia ser aquilo que eu pensava... Mas ali estavam as palavras todas, e a conclusão só podia ser uma: whoa, Jesus era comunista!

Claro que isto levantava algumas questões. A primeira era, inevitavelmente, porque é que nunca ouvi falar disto? Seria de esperar que sendo estas palavras tão explícitas e com tão pouca margem para dúvidas, alguém já se tivesse lembrado de escrever um livro ou qualquer coisa que desse polémica à volta deste tema. Até hoje ainda não encontrei grande coisa sobre isso. Um ou outro artigo na net sobre isto, e nada mais. Verdade seja dita, também não procurei muito. O texto fala por si, não é preciso um livro escrito por um doutor para o validar.

Outra questão: como é que os cristãos são normalmente associados à direita, e como é que os Estados Unidos que são tão católicos e tão "one nation under God" rotulam o comunismo como obra do Demo? Só vem provar (como se ainda precisassemos de mais provas) que para muita gente a mensagem passou mesmo ao lado. Se Jesus fosse vivo aposto que ainda hoje andava por aí a perguntar "Porque me chamam Senhor, Senhor, e não fazem o que eu digo?"

É do conhecimento geral que Jesus dizia muitas vezes aos que o queriam seguir para abandonarem o que tinham, para venderem as suas coisas e darem o dinheiro aos pobres. Se soubermos só isto podemos ficar com ideia que eram um bando de pobrezinhos que andavam de cidade em cidade a mendigar para se alimentarem. Mas este excerto do livro dos Actos mostra-nos a questão de um outro ângulo. Partindo do princípio que a doutrina não foi corrompida nos primeiros anos que se seguiram à morte de Jesus (e não temos nenhuma razão para acreditar que foi), podemos assumir que esta prática de receber o dinheiro para depois o dividir por todos foi uma prática introduzida pelo próprio Jesus e depois continuada pelos Apóstolos nas comunidades que dirigiam. Lembro-me agora de Judas, o Apóstolo nomeado por Jesus para se encarregar do dinheiro de todos.

Podem não concordar comigo, mas eu acho que o Comunismo é a política ideal. Uma sociedade onde todos são iguais e não há necessitados. O que há nisto que não seja desejável? E pensar que há 2000 anos Jesus andava pelas cidades de Israel a ensinar precisamente isto faz-me cada vez acreditar que ele era um sábio como há poucos. Camarada Jesus, o Professor perfeito.

O título do post está escrito em cirílico e lê-se tovarich Iisus, o que traduzido corresponde a Camarada Jesus.

3 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

«Comunista» seria um grande exagero e uma deturpação conceptual... mas é bom não esquecer que é uma aproximação ao marxismo que funda a Teologia da Libertação.

Suntory Time disse...

Claro. Jesus nunca poderia ser "comunista" no sentido que hoje damos à palavra. Aposto que ele nunca na vida usou a palavra 'proletariado' e nunca chamou a ninguém camarada... Também nunca deve ter pensado nas grandes teses políticas e económicas nas quais hoje pensamos quando lemos comunismo.

Mas a ideia de nada ser de ninguém, tudo ser de todos, todos serem iguais e não haver necessitados... não é essa a ideia de base?

Cate disse...

Comunismo, não diria, até porque há ideias associadas à palavra que não cabem na doutrina de Jesus.

Mas sim, penso que o que Jesus idealizava era uma sociedade em que cada um faz para si próprio e tudo está ao alcance de todos.