terça-feira, março 13, 2007

Paulo, o Anticristo - Parte I

Anticristo (s. m.): um oponente de Cristo
um adversário de Cristo que governará o mundo até ao Retorno de Cristo
o último perseguidor da doutrina de Cristo que aparecerá no fim do mundo para combater o cristianismo e trazer à humanidade os maiores sofrimentos.

Acho que o título deste post assusta/escandaliza/indigna muita gente. Pensem que "anticristo" significa apenas "contra Cristo". Se Cristo é Jesus e Jesus é a sua Mensagem, então o anticristo é alguém que prega uma doutrina oposta à verdadeira doutrina de Jesus. Vejamos então se Paulo cabe neste definição.

O ponto alto (ou um dos) do ministério de Jesus é o Sermão da Montanha. Jesus reuniu um número extraordinário de pessoas num monte e ensinou-lhes as Bem-Aventuranças (Mateus 5, 1-12), de onde retiramos os pilares para uma vida Perfeita: justiça, paz, humildade, misericórdia, pureza de coração. Jesus não fala sobre fé, nem sobre si próprio durante este sermão, mas sim sobre conduta "justa".

De facto, a preocupação de Jesus com a conduta justa é o centro de todas as suas lições. Ele disse, "Os justos terão vida eterna." (Mateus 25, 46) Quando ensinava, falava às pessoas sobre o Reino de Deus (que está "dentro de ti" [Lucas 17, 21]), e sobre como atingi-lo e ser perfeito ("Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste" [Mateus 5, 48]).

A vida justa e a perfeição manifestam-se, segundo Jesus, pelos "frutos". Árvores boas dão bons frutos, árvores más dão maus frutos. Tal como Jesus disse, "Pelos seus frutos os conhecerás."(Mateus 7, 16-17) Quer isto dizer que podemos conhecer o interior de uma pessoa pela suas acções (frutos), e separar os bons dos maus consoante as suas acções são boas ou más. Jesus disse aos discípulos que é isto mesmo que acontecerá no Julgamento (João 5, 29).

Jesus queria dos seus discípulos bons frutos. Ele próprio o disse na sua despedida, durante a Última Ceia: "Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amar-des uns aos outros." (João 13, 35) Disse também: "Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando." (João 15, 14-15)

Os bons frutos são não só a marca do discípulo mas também o requisito para a entrada no Reino de Deus: "Nem todos os que me dizem "Senhor, Senhor" entrarão no Reino do Céu; mas sim aqueles que cumprem a vontade do meu Pai que está no Céu." (Mateus 7, 21) O objectivo da missão de Jesus era ensinar os mandamentos. E ele próprio disse: "Todo aquele que escuta estas minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha." (Mateus 7, 24-27)

Todas estas coisas são evidentes na doutrina de Jesus. Basta ler o Evangelho - elas estão lá, em todas as coisas que Jesus disse e fez. No entanto, a versão de Paulo é drasticamente diferente. Segundo este, a Salvação, a entrada no Reino de Deus, consegue-se através da Fé, e não dos "frutos". Ouvir e pôr em prática os ensinamentos de Jesus não é um requisito obrigatório para "acertar contas com Deus", porque, de acordo com o "evangelho" de Paulo, apenas a verdadeira Fé pode salvar um homem. Isto o diz Paulo em diversas ocasiões:

  • "Pois estamos convencidos que é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da lei." (Romanos 3, 28)
  • "Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto [...] não vem das obras. (Efésios 2, 8-9)
  • "Ele salvou-nos, não em virtude das obras de justiça que tivéssemos praticado, mas da sua misericórdia [...] a fim de que pela graça, nos tornemos herdeiros da vida eterna." (Tito 3, 5-7)
Paulo torna a reforçar esta ideia em Romanos 4, 6 e 2 Timóteo 1, 9. Porque era ele tão insistente neste assunto? Se toda a vida de Jesus foi ensinada a ensinar e a incentivar a cumprir os ensinamentos, será que não terão alguma importância? De acordo com Paulo, não, não têm. Aliás, Paulo nunca os cita - é essa a importância que lhes dá. Exaltando a Fé sem Obras, Paulo vira Jesus do avesso, obscurecendo o âmago da sua Mensagem - "sede perfeitos" - e substituindo-os com um novo lema: sede beatos. As duas doutrinas são radicalmente opostas. Cristo e Anticristo.

Evidentemente, os verdadeiros Apóstolos faziam o seu melhor e falavam publicamente contra Paulo. Foi o que fez Tiago, irmão, amigo e Apóstolo de Jesus, na sua epístola, respondendo directamente aos devaneios hereges de Paulo.

Queres tu saber, ó homem insensato, como é que a fé sem obras é estéril? Vedes, pois, como o homem fica justificado pelas obras e não somente pela fé. Assim como o corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras está morta.
(Tiago 2, 20-26)

Apesar de Tiago nunca usar o nome de Paulo na sua carta, é evidente que esta é uma resposta à carta aos Romanos. Se tiverem por aí uma Bíblia comparem as passagens Romanos 3, 28 e Tiago 2, 24. Não só é a estrutura frásica idêntica como as palavras (no grego, apesar de diferirem em algumas traduções modernas) usadas por ambos são exactamente as mesmas. Tiago usa até o mesmo exemplo que Paulo, citando o mesmo versículo sobre a salvação de Abraão, mas dando uma explicação exactamente oposta à de Paulo.

É que, se Abraão foi justificado por causa das obras, tem motivo para se poder gloriar, mas não diante de Deus. [...] Àquele, porém, que não realiza qualquer obra, mas acredita naquele que justifica o ímpio, a esse a sua fé é-lhe atribuída como justiça.
(Romanos 4, 1-5)

Não foi porventura pelas obras que Abraão, nosso pai, foi justificado?
(Tiago 2, 21-23)


É mais um caso em que temos de escolher confiar em Paulo ou num dos Apóstolos. Fé, como disse Paulo, ou Obras, como defendia Tiago (e Jesus)?

Nem todos os que me dizem "Senhor, Senhor" entrarão no Reino do Céu.
Jesus
(Mateus 7, 21)

domingo, março 11, 2007

Paulo e Pedro, a Questionável Amizade

Jesus disse, "Tu, segue-me!" (João 21, 22)

Segundo a tradição da igreja católica, Pedro e Paulo eram grandes amigos. São representados como sendo os melhores amigos em Cristo. Mas... não era bem assim.

A primeira prova que temos vem do próprio Paulo, que desprezava as palavras e acções de Pedro, falando contra ele em público (Gálatas 2, 11-14). Por raciocínio lógico deduzimos que Pedro não podia concordar com Paulo. Sendo um dos Doze, esteve com Jesus e sabia qual era a verdadeira doutrina dele (ou seja, diferente da de Paulo).

Quando confrontados com este argumento, cristãos conhecedores da Bíblia não perdem tempo a citar a segunda carta de Pedro, capítulo 3, versículos 15 e 16: "Escreveu-nos também o nosso caríssimo irmão Paulo, segundo a sabedoria que lhe foi concedida. E assim fala em todas as Cartas em que trata destes temas; há nelas alguns temas difíceis, que os ignorantes e pouco firmes deturpam - como fazem às restantes Escrituras - para a sua própria perdição."

Ora, há algumas coisas que podemos dizer sobre esta passagem. Primeiro que Paulo tinha de facto, muitos inimigos que analizavam as suas cartas ("distorcem") e que "Pedro" considerava as cartas de Paulo "Escritura". E se assim era, então aqui está a prova que Paulo e os Apóstolos até se davam bem e que Paulo vinha da parte de Jesus. Se isto é verdade então andei aqui a perder tempo com tantos posts a desmascarar Paulo.

Claro que as coisas não são tão simples.

Douglas del Tondo no seu livro Jesus Words Only faz uma breve história do canon bíblico. Um pormenor interessante que vemos nesta cronologia é que a segunda carta de Pedro teve bastantes problemas em ser aceite. Ao fim de várias décadas foi integrada no canon, e novamente rejeitada alguns anos mais tarde, até que finalmente passou a fazer parta da Bíblia tal como a conhecemos hoje. Esta constante rejeição é suficiente para levantar algumas suspeitas. E de facto, muitos estudiosos concordam que 2 Pedro é uma pseudo-epístola, não escrita por Pedro, o Apóstolo.

Há também uma boa parte de estudiosos que pensa que estes versículos onde Paulo é referido são uma inserção (feita, nada mais nada menos que pelos fiéis discípulos de Paulo - nada de novo, é apenas mais uma táctica desonesta como todas as outras). E, efectivamente, lendo o texto em contexto, a menção a Paulo parece um pouco descabida. Mais, retirando os dois versículos, a carta continua a fazer perfeito sentido.

Na minha opinião, as duas coisas podem ser verdade. Talvez 2 Pedro seja uma fabricação, e se é, então não interessa se faz ou não referência a Paulo, ou se essa referência é uma inserção posterior ou não - é falsa e acabou. Mas se é de facto uma carta autêntica de Pedro, então os versículos são definitivamente uma inserção. Pedro jamais apoiaria Paulo.

Seja como for, é curioso olhar para um outro livro bíblico: o Evangelho de João. Os últimos capítulos, que falam dos episódios pós-ressureição, também levantam algumas suspeitas de inserção posterior. Se tal aconteceu, então não duvido que foi obra de João e os seus seguidores, eternos defensores de Jesus. Caso não sejam uma inserção, contêm, para quem acredita nestas coisas, uma profecia bastante relevante.

Pedro é sempre retractado como o discípulo com alguns problemas em manter-se fiel às suas convicções. Não foi ele que negou Jesus três vezes no momento mais difícil? Numa clara referência a este momento de fraqueza, Jesus ressuscitado pergunta a Pedro três vezes se o ama e se é seu amigo. Relembremos o que Jesus entende por amigo: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando." (João 15, 14)

Cada vez que Pedro diz que sim, que é muito seu amigo, Jesus pede-lhe que apascente as suas ovelhas, ou seja que espalhe a sua mensagem. E depois diz o seguinte:

"Em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres." (João 21, 18)

Interpreta-se normalmente este "estender as mãos" como sendo uma referência martírio de Pedro. Eu acho que pode ser uma maneira de dizer "pregar". Mas quem é o "outro" que ata Pedro e o leva para onde ele não quer ir? Conhecendo o estilo de João, este é mais um puzzle, uma referência indirecta a alguém... E quem? Paulo, who else? Paulo, o falso apóstolo que de modo nenhum era amigo de Jesus, pois não fazia o que ele tinha ensinado, e pregava uma outra doutrina. Se Pedro era amigo de Paulo então não podia ser amigo de Jesus também. Já dizia Jesus, nenhum homem pode servir dois senhores... (Mateus 6, 24) Então Pedro era amigo de quem? De Paulo, tal como está na carta que Pedro não escreveu? Ou de Jesus, tal como está escrito no Evangelho e como o próprio Pedro disse? Não me parece haver aqui grande dúvida, sinceramente.

Até aos dias de hoje, Pedro é o único Apóstolo que se diz ter tido alguma relação de proximidade com Paulo. Se a falsa carta de Pedro, com a inserção referente a Paulo, já estava em circulação na altura em que este bocado do Evangelho foi escrito, não me espanta nada encontrar esta referência feita por João: Paulo estava a tentar levar Pedro para o seu lado e João tinha que impedir a vitória do falso apóstolo. Não é nada que João não tenha feito noutros textos (Apocalipse e Cartas).

Ainda neste último capítulo do Evangelho de João há mais uma coisa interessante. Imediatamente depois de profetizar sobre o futuro de Pedro, Jesus diz-lhe: "Segue-me!" E mais adiante, torna a dizer: "Tu, segue-me!"

Jesus parecia preocupado com os caminhos de Pedro... Talvez estas sejam palavras importantes. Segue-me. Jesus disse-o mais que uma vez durante o Evangelho: "Segue-me."

Trabalho de casa: comparar com Filipenses 3, 17, onde Paulo escreveu: "Sede todos meus imitadores."

A verdade é que ainda não acabei de falar sobre o infame Paulo. Continuo no próximo post.

quarta-feira, março 07, 2007

Paulo, o Lobo com Pele de Ovelha

Jesus disse, "Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis." (Mateus 7, 15)

Paulo era um falso Apóstolo, mas um verdadeiro patife. Fazer passar-se por um dos Doze escolhidos não foi a sua primeira obra contra Jesus. Como se sabe, e como o próprio Paulo diz em várias das suas cartas, em tom de orgulho, por vezes, antes da sua "conversão", Paulo, chamado Saulo na altura, era o maior perseguidor dos seguidores de Jesus. Esteve, inclusive, directamente envolvido no primeiro martírio, de Estêvão.

Há um outro episódio de perseguição que não se encontra relatado na Bíblia, mas sim numa carta de Pedro que faz parte do Novo Testamento Essénio. Tiago, um dos Apóstolos mais importantes, a par de Pedro e João, encontrava-se no Templo a convite dos líderes judeus, para discursarem. Primeiro falou o sacerdote, e depois Tiago tomou a palavra e falou-lhes sobre Jesus e os seus ensinamentos. Tudo o que dizia surpreendia os que o ouviam, por ser uma doutrina tão inovadora. As palavras de Tiago foram convincentes e muitos se converteram. Menos um, que se encontrava no auditório. Paulo.

Quando Tiago se calou, foi a vez de Paulo falar e proferir palavras inteligentes, mas cheias de raiva. Paulo era uma fera, e conseguiu virá-los contra Tiago e os discípulos que ali estavam, gerando-se um motim em que dezenas foram assassinados. Paulo dirigiu os seus esforços pessoais a Tiago, atirando-o do cimo das escadas. Julgando-o morto, foi se embora e deixou-o ali.

Por sorte, Tiago não morreu. Mas Paulo não desistiu e continuou a sua perseguição, falando contra Jesus, os seus seguidores e a sua doutrina sempre que podia. Para ele, tudo aquilo era uma abominação.

Mas o que é certo é que os Apóstolos eram bem sucedidos, e o núcleo de seguidores aumentava de dia para dia. A clara oposição violenta de Paulo não estava a funcionar, por isso estava na altura de pôr em prática o plano B: se não os podes vencer, junta-te a eles... e destrói-os por dentro.

Aqui entra a fantástica "conversão" na Estrada para Damasco. Paulo diz ter tido uma visão de Jesus, que lhe perguntou, "porque me persegues?" E supostamente nesta altura, Paulo emendou os seus erros e tornou-se "apóstolo". Mas como costumam dizer, mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo. Primeiro porque os mentirosos têm tendência a dizer "não estou a mentir", o que Paulo faz constantemente (Gálatas 1, 20 por exemplo: "Ora, acerca do que vos escrevo, eis que diante de Deus testifico que não minto!")

Outro sinal de uma mentira é que a história nunca se mantém. De cada vez que a conversão é relatada, os pormenores mudam (Actos 9, 3-19; Actos 22, 6-15; Actos 26, 2-19). Até mesmo o que se passou depois é incerto, já que é relatado de uma maneira num lado (Actos 9, 19-27) e doutra noutro (Gálatas 1 e 2).

Ao que parece, os Apóstolos tiveram algumas dificuldades com esta mudança de Paulo. Primeiro, duvidaram e tiveram medo da sua aproximação. Depois, aceitaram. E quando viram que Paulo não estava interessado em seguir o que Jesus disse, renegaram-no.

João falou indirectamente de Paulo, não só no Apocalipse, mas também nas suas cartas. João tinha o hábito de não referir certas pessoas pelo nome, mas sim por títulos ou por acções. Já no Evangelho, há um "discípulo que Jesus amava", interpretado pela tradição mais ortodoxa como sendo o próprio João, ou segundo outras interpretações, Maria Madalena.

João avisa a respeito de "falsos profetas", e enumera algumas das suas características: não seguem os Apóstolos (1 João 4, 6), ensinam doutrinas contrárias, nomeadamente que Jesus não tinha um corpo inteiramente humano (1 João 4, 2), fizeram parte do grupo (de discípulos) mas afastaram-se (2 João 2, 19), e não cumprem os ensinamentos de Jesus ( 2 João 1, 9).

Tudo isto se aplica a Paulo. Se Paulo se "converteu" e foi falar com os Apóstolos, é evidente que depois se separou deles. O próprio o diz, que se separou e foi sozinho pregar aos gentios (Gálatas 2, 9). Também sabemos que Paulo não achava que os Apóstolos fossem grande coisa, apenas "pareciam ser pilares", mas a ele "não lhe acrescentavam nada". Não só não os ouvia, como chegou a confrontar Pedro publicamente sobre as suas acções, condenando-as (Gálatas 2, 11).

Paulo ensinava coisas contrárias à doutrina ensinada pelos Apóstolos. No que toca à humanidade de Jesus, Paulo dizia que Jesus tinha sido enviado na "aparência de carne humana" (Romanos 8, 3). Os Apóstolos por seu lado diziam que Jesus era inteiramente humano. E quanto a seguir os ensinamentos de Jesus, isso era coisa que não interessava a Paulo. Aliás, se nos guiássemos por Paulo apenas, nunca saberíamos nada do que Jesus disse ou fez, porque Paulo nunca fala sobre isso. Apenas ensina as suas próprias ideias e considerações.

Pela segunda vez temos de João a confirmação que Paulo não vinha da parte de Jesus (Apocalipse e cartas). Mas apesar das advertências dos Apóstolos, Paulo conseguiu o que queria. O seu séquito cresceu, o que não é surpreendente, já que o seu "evangelho" é bem mais fácil e conveniente do que a Mensagem de Jesus. E assim, a verdadeira doutrina foi obscurecida. Quando o evangelho de Paulo chegou a Roma, Paulo atingiu o auge da sua carreira. Foi a sua melhor jogada. E até aos dias de hoje, Cristianismo é apenas o nome que se dá à religião que Paulo criou. Um nome mais apropriado seria Paulinismo, porque de Cristo há nela muito pouco.


Continua a haver muita coisa para dizer sobre este assunto. Continuo no próximo post.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Paulo, o Falso Apóstolo

Sei que não podes suportar os maus, e que puseste à prova os que se dizem apóstolos e não o são, e os achaste mentirosos. - Apocalipse 2, 2

Os Apóstolos são os discípulos mais famosos de Jesus. Há uma certa controvérsia à volta dos seus nomes, mas aceita-se geralmente que eram Pedro, João, Tiago (Maior), Tomé, Simão, André, Filipe, Tiago (Menor), Mateus, Bartolomeu, Judas Tadeu e Judas Iscariote. Isto de serem doze é bastante significativo. Doze tribos de Israel, um Apóstolo para cada uma. O próprio Jesus falava de doze tronos no Céu, um para cada Apóstolo que ele escolheu.

Quando Jesus morreu e Judas se suicidou, os Apóstolos viram-se numa situação delicada: sem Mestre e sem um dos Doze. Percebiam que o número doze era importante, por isso trataram de escolher um substituto para Judas, impondo um critério de selecção: o escolhido devia ter seguido Jesus desde o dia do seu baptismo até à sua morte (Actos 1, 21-22). Nomearam então dois homens: José, chamado Barsabás, o Justo e Matias. A decisão final foi deixada ao Espírito Santo: tiraram à sorte e a sorte coube a Matias. Matias é portanto, décimo-segundo Apóstolo que veio substituir Judas Iscariote.

E que é feito de Paulo, "o maior de todos os Apóstolos"? Pois é. A História dos Apóstolos de Jesus não tem espaço para ele. Se deixarmos de lado as presuposições e analisarmos os factos, torna-se quase impossível entender como é que ainda hoje se junta Apóstolo e Paulo. Ou Santo e Paulo.

Apesar de não ter sido nomeado por Jesus, nem cumprir os requisitos posteriormente impostos por Pedro, Paulo apresentava-se sempre como sendo um Apóstolo. É pertinente recordar aqui algo que Jesus disse: "Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro." (João 5, 31) E na verdade, para além de Paulo há apenas uma outra pessoa que lhe atribui o título de Apóstolo: Lucas, autor de Actos dos Apóstolos. Mas Lucas era um discípulo de Paulo, logo não é surpresa que trate o seu professor pelo título que este prefere.

Paulo era um homem inteligente. Sabia que os argumentos de autoridade contam, e por isso acompanha sempre a sua apresentação pela autoridade de Deus (algo do estilo "apóstolo não pelos homens mas por Jesus Cristo"). Se "Deus" lhe deu uma missão através de uma visão (uma visão bastante questionável, por sinal, já que nem o próprio Paulo a relata de maneira coerente) quem o pode desafiar? Mas ao contrário da visão, que só Paulo teve, as palavras de Jesus foram ouvidas por muita gente. Todos os que o ouviam sabiam quem eram os Doze Apóstolos.

Paulo chega mesmo a utilizar Escrituras, aplicando antigas profecias a ele próprio, nomeadamente Isaías 49, 6: "também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra." (Actos 13, 47-49) O problema com esta profecia é que se aplicava apenas a Isaías. Não a Paulo.

Portanto, até agora Paulo tem uma questionável missão "divina" e uma falsa profecia. Que mais? Ah, sim. O grande ego e a auto-adoração. Paulo achava-se, de facto, superior aos outros Apóstolos (os verdadeiros). Chega mesmo a dizer que "trabalhou muito mais do que eles" (1 Coríntios 15, 10), e fala de Tiago, Pedro e João dizendo que "pareciam ser as colunas", mas que a ele nada lhe acrescentam (Gálatas 2, 6-9). Não há em todo o Novo Testamento nenhum autor que use a palavra "eu" com tanta frequência como Paulo.

Mas a derradeira prova da falsidade deste "Apóstolo" vem de João, ou melhor de Jesus através de João. João escreveu o Apocalipse. A data exacta não se sabe, mas é bastante provável que tenha sido escrito durante a "missão" de Paulo. Se Paulo era de facto um grande Apóstolo, não há nenhuma palavra sobre a sua grandeza nesta Revelação. Há contudo, uma referência ao seu trabalho.

Logo no primeiro capítulo a aparição de Jesus diz a João que escreva o que vê num livro e o envie às sete igrejas na Ásia. Prossegue então com uma mensagem para cada uma das Igrejas. A mais relevante para o caso é a primeira, para a de Éfeso. Diz o seguinte:

"Conheço as tuas obras, o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos, e o não são, e tu os achaste mentirosos. E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste. [...] Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." (Apocalipse 2, 2-7)

Tem-se conhecimento apenas de uma pessoa que se dirigiu à Igreja de Éfeso dizendo ser Apóstolo:

"Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus" (Efésios 1, 1)

Como se isto não bastasse, existe também este pequeno desabafo de Paulo ao seu amigo Timóteo:

"Bem sabes isto, que os que estão na Asia todos se apartaram de mim." (2 Timóteo 1, 15)

E onde é Éfeso? Na Ásia.

Também Lucas fala sobre a dificuldade de aceitação que Paulo encontrou em Éfeso. No capítulo 19 do livro dos Actos dos Apóstolos relata o sucedido. Paulo persuadiu alguns dos homens (doze, de acordo com Lucas) a deixarem o baptismo de João (convém lembrar que Jesus procurou o baptismo de João) e deu-lhes um outro baptismo "em nome de Jesus Cristo". Ensinou ali durante alguns meses, mas a maioria das pessoas rejeitaram os seus ensinamentos e falavam contra eles em público. (Actos 19, 1-9)

Então o que temos aqui? Paulo disse, "sou um Apóstolo, este é o Evangelho". A Igreja de Éfeso disse-lhe, "vai-te embora". E João, Apóstolo de Jesus, disse-lhes, "muito bem! é assim mesmo!"

Este assunto dá pano para mangas. Continuo no próximo post.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Jesus, o Libertador no Templo

And the birds gathered around him, and welcomed him with their song, and other living creatures came unto his feet, and he fed them, and they ate out of his hands. - Lection XXXIV, 3, Gospel of the Perfect Life

Uns dias antes da Páscoa dos judeus, Jesus e os seus seguidores chegaram a Jerusalém e dirigiram-se ao Templo. Quando chegaram, Jesus nem podia acreditar no que via. O Templo estava cheio de vendedores de gado, de ovelhas, de pombas, animais que os peregrinos compravam para oferecer em sacrifício para a purificação da alma. Havia ali também uns cambistas, que trocavam o dinheiro dos peregrinos para que pudessem comprar. Jesus encheu-se de indignação: fez sair dali todos os animais, derrubou as mesas, e disse:

- Saiam daqui! Esta é uma casa de oração, mas transformaram-na num covil de assaltantes. Não derramem sangue inocente neste lugar!

Mas... esta história não se parece com a versão que normalmente se conta... Pois é. Tal como em muitas outras ocasiões, também aqui foi distorcida a mensagem de Jesus. O ponto principal da revolta, o sacrifício animal, foi obscurecido, e um outro aspecto, bastante irrelevante para o caso, ganhou proporções desmedidas. Jesus não se estava a revoltar contra o "comercialismo" ter tomado conta do Templo.

Vejamos então. De acordo com todos os evangelhos, Jesus dá primeiro atenção aos animais, não aos cambistas. E a palavra que usa, aliás, que cita, é bastante significativa. A diferença entre "ladrão" e "assaltante" no tempo de Jesus é bastante clara: um ladrão é alguém que rouba uma maçã no mercado, um assaltante é aquele que diz "a bolsa ou a vida" e fala a sério. Simplificando: alguém que não se importa de matar para com isso lucrar. A ideia de assaltante está ligada a violência. Como disse, as palavras de Jesus são uma citação do profeta Jeremias:

Este é o Templo do SENHOR. Se endireitares os vossos caminhos e emendares as vossas obras, se verdadeiramente praticardes a justiça uns com os outros, se não oprimirdes o estrangeiro, o órfão e a viúva, nem derramardes neste lugar o sangue inocente, se não seguirdes para vossa desgraça, deuses estrangeiros, então Eu permanecerei convosco neste lugar. Mas voltais a cometer todas essas abominações. Porventura, este templo, onde o meu nome é invocado, é a vossos olhos um covil de ladrões?
(Jr 7, 4-9, abreviado)

Estas palavras foram proferidas por Jeremias à entrada do Templo. Jesus imita este comportamento destemido, e cita o seu modelo. Mas como vemos, Jeremias não se insurge contra os cambistas. Na verdade, nem sequer lhes faz menção, o que não é de espantar, já que não existiam no seu tempo. Mas não há no discurso de Jeremias nenhuma referência ao comercio à volta da religião, sequer, mesmo apesar de usar o termo ladrões (assaltantes). Todas as suas acusações são contra os princípios morais. E apesar de o roubo, supostamente praticado pelos cobradores, ser errado, o pecado maior é o derrame de sangue inocente.

Aliás, é ingénuo pensar que Jesus estava apenas a acusar os cambistas de roubarem os peregrinos. Porque é que "o povo, ao ouví-lo, ficava suspenso dos seus lábios" (Lc 19, 48)? Se Jesus estava apenas a falar contra o roubo, não há nisso nada de extraordinário. Porque é que o povo ficava surpreendido? Mas se a sua crítica era ao sacrifício animal... Era no mínimo um ensinamento invulgar, já que entre Jeremias e Jesus não há registos de ninguém que se tenha oposto tão veementemente ao sacrifício. Os sacerdotes e os doutores da Lei, tentando preservar a sua autoridade, começaram então a conspirar para matar Jesus. Será que o fariam se ele apenas refutasse o comércio no Templo? O desafio a um dos pilares do judaísmo da altura é uma hipótese bem mais provável.

Há outras histórias, noutros evangelhos, que mostram este lado de Jesus, como a vez em que libertou uns pássaros, ou quando persuadiu um homem a não caçar. Tudo isto corrobora a teoria que diz que Jesus fazia parte de um grupo judeu que rejeitava a Lei corrompida e seguia a verdadeira Lei de Deus dada a Moisés, os Essénios. Este grupo não se dirigia ao Templo por desaprovarem dos sacrifícios de sangue que ali tinham lugar. Eram também vegetarianos. Mas disto falarei noutro dia.

Termino com uma frase que disse há uns tempos a alguém: Yeah, Jesus was pretty much an animal liberationist. Fossem todos como ele! Porque o bom senso, a compaixão e os princípios não chegam, é preciso agir também.

Se vos apetecer, vejam isto. Apesar de não ser historicamente exacto, não deixa de ser fantástico.